segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

DE QUEM É OLHAR - FERNANDO PESSOA

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo?

Às veze, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,

Toma um outro sentido-
em mim o Universo -
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha ideia das coisas.

Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora-
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua -
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!

Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sim sou assim! Silvana RC

Já fui acusada de ser muito alegre
De ser falsa no que exprimo
E ter outros objetivos
A não ser de ser agradável.

Estes julgamentos nos ferem
Ainda mais quando somos simpáticos
Educados e socialmente bem aceito.
Infelizes esses seres invejosos!

Mas a leitura que me faço
É forte o bastante
Para me apoiar
E seguir gentil!

Amo tudo a minha volta
Com forte emoção
E não vai se uma pessoa
Que vai roubar minha educação!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

DIZEM QUE FINJO OU MINTO - FERNANDO PESSOA

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!