domingo, 27 de novembro de 2016

COMO UMA VOZ DE FONTE QUE CESSASSE - FERNANDO PESSOA

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
 Se admiraram), p'ra além dos meu palmares
 De sonho, a voz que do meu tédio nasce

Parou...Apareceu já sem disfarce
 De música longínqua, asas nos ares, 
O mistério silente como os mares,
 Quando morreu o vento e a calma pasce...

A paisagem longínqua só existe
 Para haver nela um silêncio em descida
 P'ra o mistério, silêncio a que a hora assiste...

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...

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