quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Fabrício Capinejar - O coração nem sempre é o mocinho....

Fabrício Carpinejar
O coração nem sempre é o mocinho da história, às vezes é o bandido, às vezes atenta contra a nossa própria vida.
Ele, exclusivamente, não traz felicidade. Depende da escolta do respeito, da educação, da lealdade, da paciência, de sentimentos diversos que asseguram a condição de ser amado sem se maltratar.
Devoção, isolada do mundo, pode virar cativeiro.
No tribunal do Júri de Venâncio Aires, uma mulher beija o homem que acaba de ser condenado a cinco anos de prisão por tentativa de feminicídio, após disparar sete tiros contra ela e acertar cinco.
A fotografia, publicada na segunda-feira (29) em Zero Hora, de Álvaro Pegoraro, quebra a cabeça do que esperamos de um romance.
Sugere um casal com final feliz, mas é apenas um casal adoecido pela neurose, pela obsessão, pela cegueira do triste começo e sangrento meio.
A vítima pode até querer dar uma prova que perdoou o crime, oferecer uma manifestação suprema de redenção, capaz de pairar além dos acontecimentos.
Só que ninguém está acima do bem e do mal, mas sujeito às regras da preservação.
Afeto sincero protege, não mata. Qualquer realidade diferente disso é uma mentira inventada.
Essa disponibilidade de aceitar tudo, de ser enganado pela saudade (que na verdade é submissão psicológica), de jurar que pode cuidar do agressor, costuma ser o erro da reincidência: o messianismo da paixão. Tentar ser melhor do que realmente é a ponto de suportar o pior do seu parceiro.
Não tente regenerar o algoz. Não busque convertê-lo. Não acredite na mudança mágica de personalidade.
Não há como apagar a própria vida para acender uma outra.
A imagem surge como uma versão contemporânea do beijo forçado entre um marinheiro e uma enfermeira, na Times Square, em Nova York (EUA), em comemoração ao final da 2ª Guerra Mundial, em flagrante de Alfred Eisenstaedt. Descobriu-se que, embriagado, o marinheiro agarrou a enfermeira que passava pela rua.
Em ambos os retratos, reina uma coerção masculina, e a evidência de que a violência dentro ou fora de casa será uma guerra perdida para o amor.

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